Faz um tempo que eu não sei o que é me sentir bem de verdade. Não me lembro a última vez em que estive bem por inteiro. Já nem posso falar que sou pega de surpresa pelos desconfortos e aflições físicas, porque elas têm sido tão comuns e recorrentes por aqui que já estou me acostumando. Não tem um mês em que eu passe ilesa com o meu sistema imunológico funcionando e sem ele me deixar na mão toda vez.
Marquei um imunologista para semana que vem para tentar descobrir o que me acontece. Não sei se é algum efeito psicológico das minhas ansiedades e angústias, ou se parte desse momento é pelo emocional caótico, a nova rotina de CLT ou a espera para o concurso público.
Nas últimas semanas tenho sentindo um vazio enorme, mas não é emocional ou psicológico, e sim funcional e existencial. Esse ano atingi um dos objetivos que passei um ano inteiro buscando e me dedicando, uma das maiores metas que já havia definido para mim mesma, que foi passar em um concurso público, e agora que completei quase todas as etapas, eu não sei o que fazer da minha vida.
Não tenho grandes objetivos e não me sobra ambições muito maiores, a não ser esperar. E esperar tem sido quase que uma tortura. Tenho certeza do “o que”, mas não faço a menor ideia do “quando”. Não ter a data exata para rabiscar no calendário tem um gosto razoavelmente amargo. E eu simplesmente não sei o que fazer na espera. A ideia do “não saber”, não importa o que eu faça, me faz não ter nenhuma direção de para onde ir. Não sei quais coisas podem se tornar paixões avassaladoras para me motivar, nem quais anseios poderia abraçar para me dar um norte.
O futuro é uma surpresa, e eu não consigo ver nenhuma fresta.
Tudo o que eu tentei não fez sentido por muito tempo. Investir no Instagram. Para que exatamente? Para cada um dos posts e vídeos que fiz serem limitados por um algoritmo que controla tudo e cada conteúdo morrer poucos minutos depois de vir ao mundo? Pensei até mesmo em voltar a estudar para concurso com foco na PRF, mas na minha rotina atual seria quase impossível encaixar os estudos novamente. Estava obcecada em me tornar fisiculturista, mas era só para preencher esse vazio funcional e ocupacional que venho carregando. Sobrou até para a psicologia, mas ela é mais prazer do que objetivo. É algo que faço mais por diversão do que por obrigação.
Sinto falta de ter um objetivo qualquer para me dedicar, sabe? Algo grande e tão imenso quanto a minha própria vida, mas agora não há um porquê maior, não há uma razão profunda me movimentando e movendo a vida, pelo menos no sentido funcional. Há apenas a espera. Então eu não sei para onde direcionar a minha energia, a minha disposição e a minha força de vontade, embora eu tenha muitos mini-planos pela frente.
Talvez o meu grande plano seja me acostumar com a espera & entender o que fazer com ela. A minha grande questão é o que eu faço enquanto espero.
Durante esses dias, estou tentando viver a vida sem um rótulo de um objetivo me esperando lá na frente, sem uma linha de chegada para atravessar ou uma escada onde eu preciso chegar ao topo rápido. E se tem uma palavra que define como esse processo tem sido é: silencioso. É tudo tão silencioso quando não tem uma obsessão 24h por dia para pensar e focar. Não tem aquela voz sussurrando que você não está sendo o suficiente. Não tem aquela pressão interna de fazer algo dar certo a qualquer custo.
É calmo e silencioso. É apenas o aqui e o agora. O hoje. É estranho, devo admitir. Eu não tenho nenhum outro lugar para ir, então só me sobra exatamente onde estou. Talvez o propósito dessa espera seja somente isso: esperar. Meio sem graça, né? A pessoa que eu me tornei nos últimos tempos é o oposto da calma que esse momento me pede: ligada nos 220v, querendo dar conta de tudo & correndo de um lado para o outro.
Na verdade, essa espera não me pede calma, me pede confiança. Confiar que existe um espaço de vida me esperando quando eu atravessar o limbo e até lá, eu posso fazer qualquer coisa que eu quiser, ser quem eu quiser e me entregar ao que der na telha.
Parece que, depois de tanta comparação, de ver tanta gente conquistando o grande, o imenso, o colossal, eu tenho que me contentar em ser feliz com o simples e o pequeno, mas eu esqueci que são as coisas mais simples, pequenas e minúsculas que sustentam todo o resto e que cultivá-las exige até mais esforço que as grandes.
Talvez seja por isso que eu viva tão doente: eu só veja valor no que é grande. Eu só contemplo e reconheço o que tem tamanho extra g. Eu nunca vi acordar cedo como uma conquista, mas é, porque hoje acordar cedo tem sido um desafio. Eu nunca vi ler como uma conquista, até eu ir perdendo a constância, o ritmo e o tempo de leitura. Por focar depois em ter algo grande para alcançar, eu fui quase perdendo a capacidade de olhar para o simples da vida e reconhecer que também são dignas de serem chamadas de metas.
Coisas simples são imensas.
Hoje eu não tenho um objetivo para alcançar lá na frente, algo pelo qual lutar hoje para chegar em algum lugar amanhã. E isso me deixa de presente apenas o hoje para cuidar. O meu objetivo agora talvez seja cuidar de mim, abrir espaço para viver com calma e silêncio, me dar oportunidade de ser quem eu realmente sou, mas que a vida de antes não me deixava ser, e talvez só por hoje, isso baste.

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